A cabeça de cima é muitas vezes
responsável pelo fracasso da cabeça de baixo
Esse amigo brochou seguidas vezes e não sabia explicar o porquê.
Estava diante da trepada de sua vida, com aquela mulher nua deitada diante dele,
e o camarada dos países baixos resolveu tirar um cochilo. Perguntei se a moça
era esteticamente desfavorecida ou cometeu alguma gafe na hora H. Vai que
gritou o nome do time rival, lustrou o aparelho dentário antes de cair de boca
ou revelou pelos pubianos claudia-ohanizados demais para o gosto dele… Nada disso.
O problema não era com ela. Eu quis contemporizar, mas insisti: “Quem sabe um
dia estressante no trabalho, conta bancária no vermelho, brigas familiares,
álcool em excesso, diabetes?” Cinco vezes, ouvi “nãããão”.
Dias atrás, enquanto fazia entrevistas para uma matéria sobre
prazer, deparei com um diagnóstico bem possível para esse amigo. Desconfio que
ele sofra da Síndrome do Desempenho.
No tempo do bisavô dele, bastava ter um pênis ereto (tudo bem, você vai dizer
que nem isso ele conseguiu, mas deixe que eu conclua o raciocínio!). Sexo não
era algo para satisfazer a mulher. Servia para aliviar o marido e procriar. Com
raras exceções, não tinha preliminares nem o objetivo de ser prazeroso para
ambos. Os homens levavam para casa aquilo que as prostitutas ensinavam. Quando
surgiu a pílula anticoncepcional, que libertou a mulher para transar sem
engravidar, passamos a nos divertir com o sexo. A querer mais do que abrir as
pernas.
Algo que, para eles, era tão simples quanto enfiar a chave na
fechadura… ficou complicado. Hoje é quase uma obrigação ter um sexo de extrema
qualidade. Você vê na revista quais os segredos para alcançar orgasmos
múltiplos. A indústria farmacêutica lança produtos que prometem manter a ereção
por horas. Os sex shops vendem vibradores para encaixe simultâneo em dez
orifícios e “velocidade cinco do créu”. O cinema e a televisão mostram
coreografias pornográficas dignas do Cirque du Soleil. Há uma
cobrança por um desempenho tão fenomenal que você tem vergonha de gostar do
tradicional papai-mamãe.
“É um prazer idealizado que complica o sexo, nos torna máquinas”,
afirma Alexandre Saadeh, psiquiatra do núcleo de sexualidade no Hospital das
Clínicas da USP-SP. Essa angústia causada pelo temor do desempenho pode gerar
disfunções eréteis, ejaculação precoce etc. Disfunções sexuais podem ser culpa
de diversos fatores, de desemprego à colesterol alto. Mas, dizem os
especialistas com quem conversei, o mais comum é que tenham fundo emocional.
Claro que, quando meu amigo veio desabafar, primeiro descartei as demais
possibilidades. Ou seja, provavelmente, não é a cabeça de baixo que ele precisa
trabalhar.
http://colunas.revistaepoca.globo.com/sexpedia/

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